Honduras retoma contagem manual após três dias de suspensão e tensão diplomática envolvendo Donald Trump

O Conselho Nacional Eleitoral de Honduras (CNE) retomou, nesta segunda-feira (8), a contagem manual dos votos da eleição presidencial, interrompida por três dias em meio a uma crise institucional marcada por declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que vem apoiando publicamente o candidato líder da disputa — vantagem de apenas 19 mil votos, segundo a última atualização.
A presidente do CNE, Ana Paula Hall, afirmou que o processo voltou a avançar após a realização de “ações técnicas necessárias”, supervisionadas por uma auditoria externa. “Os dados estão sendo atualizados na divulgação dos resultados”, informou.
Interferência e ameaças
A suspensão temporária da contagem provocou uma escalada de tensões internacionais. Sem apresentar provas, Trump sugeriu que o órgão eleitoral hondurenho estaria tentando mudar o resultado da eleição e publicou uma ameaça direta: “Se conseguirem alterar o resultado, haverá consequências terríveis!”.
As declarações foram interpretadas pelo governo hondurenho como tentativa de ingerência no processo democrático. Neste domingo (7), o partido governista Libre, da presidente Xiomara Castro, pediu a anulação completa do pleito realizado em 30 de novembro, alegando interferência indevida do líder norte-americano.
No comunicado oficial, o partido também criticou o polêmico indulto concedido por Trump ao ex-presidente hondurenho Juan Orlando Hernández, condenado em Nova York a 45 anos de prisão por narcotráfico.
Indulto reacende polêmica
O indulto ao ex-presidente Hernández, anunciado por Trump em meio à campanha hondurenha, reacendeu disputas internas. Hernández pertence ao Partido Nacional, o mesmo do candidato apoiado pelo presidente norte-americano, Nasry Tito Asfura, ex-prefeito de Tegucigalpa e figura influente da política local.
O Libre acusa Trump e setores aliados da oligarquia hondurenha de financiar campanhas digitais direcionadas, enviando milhões de mensagens que sugeriam que hondurenhos que não votassem no candidato de Trump poderiam ter as remessas de familiares nos EUA interrompidas — uma conduta considerada coercitiva pelas lideranças do partido.
Cenário eleitoral apertado
Com cerca de 88% das urnas apuradas, o CNE aponta:
- Nasry Tito Asfura (Partido Nacional) – 40,2%
- Salvador Nasralla (Partido Liberal) – 39,51%
- Rixi Moncada (Libre) – 19,28%
Em Honduras, não há segundo turno. O candidato mais votado na primeira e única rodada é declarado vencedor, o que torna a diferença atual extremamente sensível.
A apuração é feita manualmente, por meio de cédulas de papel, o que aumenta a tensão diante da margem estreita.
Dimensão geopolítica
Para o professor Gustavo Menon, especialista em relações internacionais da Universidade Católica de Brasília (UCB), a postura de Trump reflete um movimento estratégico dos EUA para reforçar sua presença histórica na América Central, especialmente diante do avanço econômico da China na região.
“Os EUA entendem essa região como parte direta de sua área de influência. O posicionamento de Trump busca conter o crescimento chinês e apoiar candidatos alinhados à sua política externa e a valores conservadores”, explica.
Menon avalia ainda que a candidatura de Asfura dialoga mais diretamente com a agenda da atual Casa Branca, especialmente nas pautas ligadas à imigração. Já a candidatura de Salvador Nasralla, do Partido Liberal, pode convergir com posições mais abertas a negociações com a China, segundo o analista.
Fonte: Agência Brasil