Brumadinho: sete anos depois, familiares ainda esperam justiça por 272 vidas perdidas

Era uma sexta-feira quando a vida de Nayara Porto mudou para sempre. Aos 27 anos, ela preparava um pudim — a sobremesa preferida do marido, Everton Lopes Ferreira, de 32 — para o fim de semana. Enquanto o doce estava no forno, ouviu a vizinha comentar sobre o rompimento de uma barragem da Vale, em referência à estrutura da Mina Córrego do Feijão, em Brumadinho, na região metropolitana de Belo Horizonte.
“Eu fiquei sem entender direito. Depois ela me chamou e perguntou se meu marido estava em casa. Eu disse que não, que ele estava trabalhando, e aí ela me contou o que tinha acontecido”, relembra Nayara, em entrevista ao programa Natureza Viva, da Rádio Nacional. “Foi um desespero total.”
Ela tentou ligar diversas vezes para o marido, mas o telefone já não completava a chamada. Também buscou contato com colegas de trabalho dele. Um deles atendeu: havia conseguido escapar da onda de rejeitos de lama. “Ele me disse: ‘Nayara, ora, pede a Deus’. O armazém onde meu marido trabalhava, o almoxarifado, simplesmente deixou de existir”, conta.
2.557 dias sem responsabilização
O rompimento da barragem ocorreu por volta de 12h30 do dia 25 de janeiro de 2019. Ao todo, 272 pessoas morreram. Passados 2.557 dias da tragédia — classificada pela Associação dos Familiares de Vítimas e Atingidos (Avabrum) como “tragédia-crime” — ainda não houve responsabilização criminal definitiva.
Agora, sete anos após o desastre, 15 pessoas poderão responder judicialmente pelo caso. As audiências de instrução começam em 23 de fevereiro, na 2ª Vara Federal Criminal de Belo Horizonte. Até maio de 2027, vítimas sobreviventes, testemunhas e réus serão ouvidos.
Ao final dessa fase, a juíza Raquel Vasconcelos Alves de Lima poderá decidir se o caso vai a júri popular. Entre os acusados estão 11 ex-diretores, gerentes e engenheiros da Vale e quatro funcionários da TÜV SÜD, empresa alemã contratada para atestar a segurança da barragem.
Padrão de impunidade
A jornalista Cristina Serra, autora do livro Tragédia em Mariana, também participou do programa Natureza Viva e relacionou o caso de Brumadinho a outros desastres ambientais envolvendo mineradoras, como o rompimento da barragem de Mariana (2015) e o afundamento do solo em Maceió, ligado à exploração de sal-gema.
Segundo ela, há um padrão de falhas graves e ausência de punições. “São empresas que operam com muita irresponsabilidade e não investem o suficiente em segurança, priorizando a margem de lucro”, afirma. Cristina também critica a atuação dos órgãos fiscalizadores, que, segundo ela, muitas vezes se baseiam apenas em documentos enviados pelas próprias empresas, sem inspeções rigorosas em campo.
O que dizem as empresas
Procurada, a Vale informou que não comenta processos judiciais em andamento, mas destacou ações de reparação na região. A empresa afirma que, até dezembro de 2025, já executou 81% do Acordo Judicial de Reparação Integral, com investimentos que vão além das indenizações, incluindo recuperação socioambiental, abastecimento de água e iniciativas de diversificação econômica. A mineradora também afirma que tem reforçado a segurança de suas barragens.
A Samarco, responsável pela barragem que se rompeu em Mariana, declarou que mantém solidariedade às vítimas e que, após o Novo Acordo do Rio Doce, firmado em 2024, assumiu diretamente a condução das ações de reparação. Segundo a empresa, indenizações foram pagas, distritos reconstruídos e projetos ambientais seguem em andamento.
Já a TÜV SÜD manifestou solidariedade às vítimas, mas afirmou não ter responsabilidade legal pelo rompimento. A empresa sustenta que os laudos de estabilidade emitidos seguiram a legislação e os padrões técnicos vigentes à época.
Memória e homenagem
Neste domingo, às 11h, a Avabrum promove um ato em memória das 272 vítimas. A homenagem será realizada no letreiro de Brumadinho, na entrada da cidade, às margens da rodovia MG-040. Para os familiares, mais do que lembrar, o momento reforça a luta contínua por justiça e por mudanças que impeçam novas tragédias.
Fonte: Agência Brasil