
O primeiro debate entre o senador Flávio Bolsonaro (PL) e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi marcado por ataques e acusações neste domingo (18). Os dois são candidatos ao segundo turno da eleição presidencial deste ano. A Band e o Estadão promoveram o encontro, que teve discussões sobre investigações, familiares e o caso Banco Master.
O clima acirrado se refletiu também na plateia, que se manifestou durante algumas falas e chegou a atrapalhar o andamento do programa. Por isso, os mediadores intervieram para pedir silêncio em diferentes momentos do confronto. No primeiro bloco, Flávio e Lula tiveram 15 minutos cada para administrar as intervenções, formato que abriu espaço para trocas de acusações sobre temas diversos.
Lula iniciou o embate ao questionar o voto de Flávio, em 2009, quando era deputado estadual no Rio de Janeiro. Na época, Flávio votou contra a ampliação em dois meses da licença-maternidade para servidoras públicas. O presidente perguntou o que o senador teria contra as mulheres. Em seguida, Flávio respondeu que respeita as mulheres e citou a mulher e as filhas, antes de direcionar os ataques ao adversário.
O candidato do PL cobrou explicações de Lula sobre as investigações envolvendo Roberta Luchsinger. Flávio a associou a Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente. Além disso, Flávio questionou por que a Polícia Federal fez buscas em um endereço ligado a Roberta, mas não no do filho do petista, e perguntou: “Cadê o Lulinha?”.
Lula respondeu que a Polícia Federal investiga o caso e divulgará os resultados ao fim das apurações. Além disso, o presidente declarou que o filho colocou espontaneamente os sigilos bancário e telefônico à disposição da corporação. Na sequência, Lula acusou o ex-presidente Jair Bolsonaro de proteger Flávio. O presidente afirmou que, em seu governo, não troca dirigentes da Polícia Federal para impedir investigações contra familiares ou aliados.
No entanto, Flávio rebateu e acusou a Polícia Federal de não investigar o filho do presidente, além de questionar o fato de Lulinha morar na Espanha. O senador também associou o governo petista a suspeitas de corrupção e citou as investigações sobre fraudes no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), afirmando que o empresário conhecido como “Careca do INSS” teria financiado o filho de Lula no exterior.
“No seu governo tem muitas quadrilhas. Inclusive, Lula, é importante falar aqui, na frente das câmeras, você fala que todo mundo tem que ser investigado, mas a Polícia Federal até agora não foi atrás do seu filho. Por que ele está fugido lá na Espanha? Por que ele não está aqui?”, questionou Flávio.
Por outro lado, Lula respondeu com críticas a Eduardo Bolsonaro, irmão de Flávio, que, segundo o presidente, está nos Estados Unidos articulando um pedido de intervenção do governo de Donald Trump no Brasil.
“O seu irmão está fugindo nos Estados Unidos, tramando contra o Brasil, pedindo intervenção do Trump no Brasil. Vocês viram que hoje, na manifestação de vocês, tinha um torpedo americano que mandava tacar um torpedo no Brasil. Na verdade, o que vocês estão fazendo é trair a pátria, e vocês serão julgados por isso.”
Os candidatos também discutiram a negociação de R$ 134 milhões atribuída a Flávio com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro para financiar o filme “Dark Horse”, sobre a trajetória de Jair Bolsonaro. A Polícia Federal investiga o financiamento por suspeitas de irregularidades na movimentação do dinheiro.
Lula cobrou explicações sobre o destino dos recursos e questionou a versão apresentada pelo senador sobre a operação. O presidente afirmou que não havia registro de pagamento do Banco Master para o filme e citou declarações atribuídas à diretora da produção sobre o não recebimento dos valores.
“Você tem que explicar os R$ 134 milhões do Vorcaro, que você disse que não pegou e pegou, disse que foi para o fundo e não foi. Eu queria que você explicasse o que você fez com os R$ 134 milhões? Foi para ajudar o seu irmãozinho”, afirmou Lula, em referência a Eduardo Bolsonaro.
Flávio negou que os recursos tivessem origem irregular e defendeu a negociação para financiar a cinebiografia do pai. “Calma que não é dinheiro por fora igual o teu não”, afirmou, antes de acusar Lula de ter recebido R$ 30 milhões de forma ilegal para o Instituto Lula.
O senador orientou os espectadores a acessar suas redes sociais para ouvir um áudio atribuído a Vorcaro. Segundo Flávio, o material trataria das diferenças entre o financiamento de “Dark Horse” e recursos destinados ao instituto ligado ao presidente.
“Você vai ver lá o áudio do Vorcaro, onde ele fala o seguinte: ‘O filme do Bolsonaro foi tudo bem, tudo certinho. O filme do Lula teve R$ 30 milhões de por fora no Instituto Lula’. É o Vorcaro que está falando”, disse Flávio.
Em outro momento, Flávio se aproximou de Lula no palco e o convidou a ficar ao seu lado. “Fica aqui do meu lado, Lula… Fica tranquilo, eu não sou um cara violentão”, disse o senador.
Lula se afastou e respondeu: “Quero distância de miliciano”. Flávio retrucou: “Estou sem carteira aqui, você não vai poder me roubar”. As declarações provocaram reação da plateia, e os apresentadores precisaram intervir mais uma vez para pedir silêncio.
Flávio mencionou Frei Chico, irmão de Lula e dirigente sindical, ao criticar as investigações sobre descontos indevidos em benefícios do INSS. Flávio acusou o governo de permitir a continuidade dos desvios e classificou o esquema como uma “roubalheira de velhinhos”, além de questionar a atuação da Polícia Federal e acusar o presidente de proteger familiares e aliados políticos.
Flávio voltou a falar das condenações de Lula por corrupção e lavagem de dinheiro, mostrando a palma da mão, onde havia escrito a palavra “corrupto”. O candidato do PL afirmou que o presidente havia sido “descondenado” por aliados no Supremo Tribunal Federal (STF), em referência à anulação das condenações impostas pela Justiça.
Por sua vez, Lula questionou como o candidato do PL comprou uma casa no valor de R$ 10 milhões, insinuando que a aquisição poderia estar relacionada a recursos ligados ao caso Banco Master. O imóvel está localizado em uma ilha em Angra dos Reis, no Rio de Janeiro, que o atacante Richarlison havia comprado por este valor e que, segundo o jogador, teria sido “tomada” por Flávio.
Ao final do confronto, Lula afirmou que Flávio perderá a eleição e, com isso, a imunidade parlamentar, acrescentando que investigações sobre o senador podem avançar. “Você se prepare que dia 25 você vai perder imunidade e você vai ter problema, porque a sua vida tem muito inquérito, que agora vai andar. Se os seus amigos não estão deixando andar, agora vai andar”, disse o petista.
Durante o confronto direto com Flávio Bolsonaro, Lula propôs que os dois candidatos autorizassem a quebra dos próprios sigilos bancários e telefônicos, além dos de seus familiares. A sugestão era entregar as autorizações ao Supremo Tribunal Federal (STF) e ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) antes do segundo turno.
A segurança pública concentrou boa parte das propostas apresentadas por Flávio Bolsonaro no debate. Flávio defendeu classificar facções criminosas, como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho, além de milícias, como organizações narcoterroristas. Também prometeu ampliar a atuação das Forças Armadas nas fronteiras e retomar territórios dominados pelo crime organizado.
Entre as medidas anunciadas estão a criação de mais de 500 mil vagas no sistema prisional, o fim das saídas temporárias de presos e a redução da maioridade penal para 16 anos, como regra geral, e para 14 anos em casos de crimes hediondos. Flávio também defendeu a castração química de estupradores e pedófilos e a instalação de mais de 1 milhão de câmeras com inteligência artificial para monitoramento.
Na área econômica, o candidato propôs criar o Ministério da Prosperidade, com foco em microcrédito, qualificação profissional e incentivo ao empreendedorismo em comunidades e periferias. Também anunciou um programa de renegociação de dívidas, com descontos, prazo de carência para o início dos pagamentos e redução dos juros.
Flávio defendeu cortes nos gastos públicos e propôs transformar a Caixa Econômica Federal em uma instituição voltada ao apoio de pequenos empreendedores. Sobre o mercado de trabalho, declarou ser favorável ao fim da escala 6×1 e afirmou que não apresentará proposta contrária à medida.
Para a saúde, o senador prometeu implementar um modelo de gestão do Sistema Único de Saúde (SUS) inspirado no Hospital Israelita Albert Einstein. Ele também anunciou o ex-presidente da instituição Cláudio Lottenberg como sua escolha para o Ministério da Saúde, caso seja eleito. Flávio afirmou ainda que pretende manter o Bolsa Família.
Na economia, Lula destacou os investimentos de R$ 25 bilhões previstos para a Nova Indústria Brasil e a expectativa de atrair até R$ 500 bilhões para a instalação de data centers no país. Lula defendeu que parte dos dados armazenados nessas estruturas permaneça sob custódia do governo brasileiro e prometeu ampliar a formação de profissionais em áreas como engenharia, matemática e tecnologia.
Para enfrentar o endividamento, Lula propôs um programa de renegociação de débitos bancários, com descontos de até 92% e cobertura de até R$ 300 bilhões em dívidas. A iniciativa também prevê um repasse via Pix com o objetivo de ajudar os beneficiários a reorganizar as finanças. Lula disse que irá manter a política de valorização do salário mínimo acima da inflação, garantindo ganhos reais para trabalhadores, aposentados e pensionistas.
Na saúde, Lula anunciou medidas para ampliar a estrutura de atendimento a pacientes com câncer, com o objetivo de garantir o início do tratamento em até 30 dias. Também prometeu manter a oferta gratuita de 40 medicamentos de uso contínuo e dar continuidade ao programa Mais Médicos.
Outra proposta é modernizar os seis hospitais federais do Rio de Janeiro, por meio de parcerias com prefeituras e a iniciativa privada. Lula também se posicionou contra medidas que, segundo ele, possam resultar na privatização do SUS.
Na segurança pública, o presidente defendeu a aprovação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança e a criação de um Ministério da Segurança Pública para coordenar ações com estados e municípios. A estratégia, segundo ele, deve combinar o combate ao crime nas comunidades com o enfrentamento das estruturas financeiras das organizações criminosas, especialmente a lavagem de dinheiro e o financiamento de facções e milícias.
Lula também propôs integrar serviços do governo federal para facilitar o bloqueio de celulares roubados ou furtados.
Na educação, o presidente anunciou a criação de uma modalidade do programa Pé-de-Meia para incentivar estudantes com bom desempenho no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) a seguir a carreira docente. Também prometeu criar uma Universidade Indígena em Brasília e manter e ampliar as políticas de cotas no ensino superior.
Por fim, Lula defendeu o fortalecimento de empresas estatais consideradas estratégicas, como a Petrobras, e a continuidade dos investimentos na indústria naval e na produção nacional de fertilizantes.